Talvez só devesse falar dos dedos que contornam móveis e dos brincos que delineiam a face e o pescoço. Mas não! Vejo cordas pesadas penduradas pelas cortinas das janelas. E tudo me é sombrio.
Meu reino ainda se mantém igual à noite anterior da minha breve viagem. Os gritos e as sombras permanecem no meu deitar ao chão.
Será somente isso? Sempre será apenas este meu estado de que todos os dias são frios e de que necessito sempre fitar meus olhos nas labaredas do fogo num canto iluminado do meu quarto? – o fogo o transforma em um grande cubo de calor e nele me acalmo; mantenho-me ausente deste pequeno e indecifrável mundo exterior.
Quem sabe, poetas dirão que há muita poesia nessas coisas que vemos. Realmente há. Não nego por um minuto sequer. Mas não se pode voar como os ágeis passarinhos que constroem o seu ninho. Não é mesmo?!
Da minha janela uma grande multidão aplaude e jogam chapéus e flores para o ar. Uma guirlanda de flores azuis abre espaço e se destaca no centro do turbilhão de gritos. E somente um, uma pessoa, despedindo-se do mundo, despeja um liquido num pano e o sacode ao ar. Os perfumes de todas as flores se liquefazem; minha janela é aberta; e assim, com o calor emanado desde meu cubo, toda a imagem do cenário e das pessoas se dissolvem. As cordas se desprendem das cortinas - os ventos as fazem esbravejar -, o vestido se torna cada vez mais leve. E, por entre as imagens derretidas, meus pés percorrem o rastro de perfume deixado pelo lenço e delimitado pelas cordas.
Glauber disse,
Domingo, 21 Dezembro, 2008 às 9:11 AM
Não perca o rastro!
Nem esqueça das cordas!
=)
Estou feliz de ter relido com mais calma.