O TEMPO E O DUPLO.

O bosque afirma: há chances mesmo de o dia ser formado por 48 hrs. O silêncio ruidoso e a árvore, que expande suas ramificações pelos tetos dos mundos, abraçam-nos em um pulsar vital. Estamos novamente no tempo relativo.
Lembro que essa história começou aos meus 21 anos. Eu e você, no mesmo bosque, a questionar a vida e os nossos amores correspondentes; nosso quadrilátero; nossas duas paixões ansiosas; nossa meninice adolescente; nosso tempo relativo; nossa coerência incoerente.
O assunto do viver frente à sobrevivência sobrevém novamente, remetendo à parte da minha caixinha preferida de assunto que mantive ao longo desses 42 anos.
E agora me questiono: será que você estava certa sobre eu viver mais do que aquelas pessoas que não tomam a morte como uma opção de vida? Eu pensava na morte. E eu sentia que eu convivia com uma dor latejante, mas que ela própria era quem me fazia viver e não somente sobreviver. Ter a consciência da morte e não temê-la nos faz viver mais intensamente. Assim como os antigos que transformavam em experiências concretas todos os acontecimentos de vida, não os concebendo apenas como fatos banais.
Absorvo o silêncio. Ao meu lado, aos poucos e novamente, com a sua voz de amiga certa, travamos um colóquio entre nossos pensamentos verbalizados. A simplicidade de que tudo estava certo é restaurada. Tudo me é simples novamente. Porém, um simples decorrente, agora, de uma coerência um pouco menos incoerente. O que eu queria, de fato,  sempre estava certo, mesmo com o passar lento do tempo. Foi difícil a aceitação do tempo divergente ao meu. Tirando isso, tudo estava na mais perfeita ordem. E é bom perceber que eu sabia disso, mesmo que de uma forma intuitiva.
Lembro que supus, aos 21 anos, que as pessoas concebem de forma relativa o tempo, condizente com o modo que retratam o mundo – mesmo assim ficava ansiosa com o talvez das nossas paixões. Não reformulei mais isto durante um bom tempo. Tomei-o como verdadeiro. Repenso agora e percebo, sem surpresa e novamente, que continuo sendo dramática, mas um pouco menos ansiosa. Incrível como algumas coisas não mudam. E, assim, continuamos rindo das nossas desgraças ainda inventadas. E de inventos em inventos, não é que o tempo realmente se transformou e eu entendi que ele foi somado ao seu duplo, tornando-se em 48hrs?! O bosque sempre esteve certo!
Realmente há tempo para tudo, no final das contas. Houve tempo para o meu drama esbanjado e a minha tragédia lacônica. Houve, igualmente, tempo de concordância entre estas partes, até mesmo sem qualquer argumentação. Porém, quedou-se tudo, no final das outras contas.
Eu apenas aprendi que minha teoria das 48hrs era para me acalmar e me fazer entender. Tomava 24hrs para viver e 24hrs para me desconstruir e reconstruir. Isso acontecendo em simultaneidade ao longo das 24 hrs tradicionais do dia. E, como era de se esperar, no trânsito convergente entre essas 24hrs duplicadas, eu parava para assimilar o que era um e o que era outro. Ficava quieta e só olhava o mundo. Afinal, quanto mais estímulos eu vivenciava mais o limite entre esse duplo se esvaecia. Por isso é que eu não gostava de gostar de alguém: questão de uma enxurrada de vida em doses não homeopáticas. Era óbvio que eu, tendo a consciência da minha morte, da minha ansiedade, do meu tempo duplo e da minha tragicomédia-dramática, sentia o medo de sucumbir. Viver e não apenas sobreviver é ter que saber lidar com essa enxurrada constante de vida. Mas eu gostava de tudo aquilo. Por fim, até que gostava de gostar sem saber se era gostada.
Essas convergências do duplo eu chamava de morte. Sempre acontecia ou quando eu dormia ou quando eu era sucumbida pela vida.
Assim, como ao longo dos meus primeiros 21 anos, antes de ontem eu voltei a morrer dormindo. Tive que proteger uma menina de doze anos de uma guerra galáctica e lembrei-me dos meus anos de mocidade. Bom saber que sempre foi assim; que sempre morria nas passagens dessas 48 hrs. E, saindo da batalha escura e inconsciente, eu acordava sabendo que ainda existiriam outras novas 24hrs, claras e revigoradas, para a minha vida na não morte e na não, apenas, sobrevivência.
Assim, posso te afirmar, cara amiga certa: o dia é feito de 48hrs para aqueles que realmente vivem.  Necessitando, porém, entre os intervalos das 24hrs, da nossa amada morte. Ora, afinal, viver significa também ter que morrer.

: Em memória dos meus 21 anos que logo mais se encerrará. E agradecimentos às pessoas que fazem com que eu viva e me entenda cada dia mais.

O bosque afirma: há chances mesmo de o dia ser formado por 48 hrs. O silêncio ruidoso e a árvore, que expande suas ramificações pelos tetos dos mundos, abraçam-nos em um pulsar vital. Estamos novamente no tempo relativo.
Lembro que essa história começou aos meus 21 anos. Eu e você, no mesmo bosque, a questionar a vida e os nossos amores correspondentes; nosso quadrilátero; nossas duas paixões ansiosas; nossa meninice adolescente; nosso tempo relativo; nossa coerência incoerente.
O assunto do viver frente a sobrevivência sobrevém novamente, remetendo à parte da minha caixinha preferida de assunto que mantive ao longo desses 53 anos.
E agora me questiono: será que você estava certa sobre eu viver mais do que aquelas pessoas que não tomam a morte como uma opção de vida? Eu pensava na morte. E eu sentia que eu convivia com uma dor latejante, mas que ela própria era quem me fazia viver e não somente sobreviver. Ter a consciência da morte e não temê-la nos faz viver mais intensamente. Assim como os antigos que transformavam em experiências concretas todos os acontecimentos de vida, não os concebendo apenas como fatos banais.
Absorvo o silêncio. Ao meu lado, aos poucos e novamente, com a sua voz de amiga certa, travamos um colóquio entre nossos pensamentos verbalizados. A simplicidade de que tudo estava certo é restaurada. Tudo me é simples novamente. Porém, um simples decorrente, agora, de uma coerência um pouco menos incoerente. O que eu queria, de fato,  sempre estava certo, mesmo com o passar lento do tempo. Foi difícil a aceitação do tempo divergente ao meu. Tirando isso, tudo estava na mais perfeita ordem. E é bom perceber que eu sabia disso, mesmo que de uma forma intuita.
Lembro que supus, aos 21 anos, que as pessoas concebem de forma relativa o tempo, condizente com o modo que retratam o mundo – mesmo assim ficava ansiosa com o talvez das nossas paixões. Não reformulei mais isto durante um bom tempo. Tomei-o como verdadeiro. Repenso agora e percebo, sem surpresa e novamente, que continuo sendo dramática, mas um pouco menos ansiosa. Incrível como como algumas coisas não mudam. E, assim, continuamos rindo das nossas desgraças ainda inventadas. E de inventos em inventos, não é que o tempo realmente se transformou e eu entendi que ele foi somado ao seu duplo, tornando-se em 48hrs?! O bosque sempre esteve certo!
Realmente há tempo para tudo, no final das contas. Houve tempo para o meu drama esbanjado e a minha tragédia lacônica. Houve, igualmente, tempo de concordância entre estas partes, até mesmo sem qualquer argumentação. Porém, quedou-se tudo, no final das outras contas.
Eu apenas aprendi que minha teoria das 48hrs era para me acalmar e me fazer entender. Tomava 24hrs para viver e 24hrs para me desconstruir e reconstruir. Isso acontecendo em simultaneidade ao longo das 24 hrs normais do dia. E, como era de se esperar, no trânsito convergente entre essas 24hrs duplicadas, eu parava para assimilar o que era um e o que era outro. Ficava queita e só olhava o mundo. Afinal, quanto mais estimulos eu vivenciava mais o limite entre esse duplo se esvaecia. Por isso é que eu não gostava de gostar de alguém: questão de uma enxurrada de vida em doses não homeopáticas. Era óbvio que eu, tendo a consciêcia da minha morte, da minha ansiedade, do meu tempo duplo e da minha tragicomédia-dramática, sentia o medo de sucumbir. Viver e não apenas sobreviver é ter que saber lidar com essa enxurrada constante de vida. Mas eu gostava de tudo aquilo. Por fim, até que gostava de gostar sem saber se era gostada.
Essas convergências do duplo eu chamava de morte. Sempre acontecia ou quando eu dormia ou quando eu era sucumbida pela vida.
Assim como ao longo dos meus primeiros 21 anos, antes de ontem eu voltei a morrer dormindo. Tive que proteger uma menina de doze anos de uma guerra galáctica e lembrei-me dos meus anos de mocidade. Bom saber que sempre foi assim; que sempre morria na passagem dessas 48 hrs. E, saindo da batalha escura e inconsciente, eu acordava sabendo que ainda existiriam outras novas 24hrs, claras e revigoradas, para a minha vida na não morte e na não, apenas, sobrevivência.
Assim, posso te afirmar, cara amiga certa: o dia é feito de 48hrs para aqueles que realmente vivem.  Necessitando, porém, entre os intervalos das 24hrs, da nossa amada morte . Ora, afinal, viver significa também ter que morrer.

3 Comentários

  1. alanamenk disse,

    Sexta-feira, 27 Agosto, 2010 às 9:06 PM

    Sinto que vou morrer… *fato!
    Gostei realmente deste post. Muito melhor sair da minha bolha de 21 anos e ver tudo de fora.

  2. Gislaine disse,

    Sexta-feira, 27 Agosto, 2010 às 9:54 PM

    Tava aqui lendo seu post e lembrei do filme “A Origem” que fala de sonhos onde vc, em 5 minutos, vivencia um dia inteiro de experiências, onde um dia pode ter 48 horas.
    Curti muito…

    • alanamenk disse,

      Sábado, 28 Agosto, 2010 às 1:36 AM

      Poxa, ainda não vi esse filme. Falaram-me que lembraram de mim… Ainda mais agora depois do seu comentário… tenho q ir ver! ^-^
      Obrigada pela visita!


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