PELOS DEDOS DE ÍRIS.

Em um enorme cômodo informe existia o universo. Sem formas, sem paredes e nem pinturas, sem norte e nem sul, e sem gravidade.
Um homem de calças jeans sujas e camiseta cinza vaga pelo ambiente. Não sente tédio. Ele é leve demais para sentir qualquer sentimento que seja além do puro fluxo interno de vida que perpassa por ele. Ele tem consciência. É ele próprio a consciência que o preenche. Sem in ou sub; completamente consciente.
Não existe a passagem dos dias; somente o sono que de tempos em tempos o conduz a fechar os olhos e a sonhar.
Ele dorme e sonha com um universo branco em que eu ele vaga, não mais flutuando como era o normal, e sim caminhando pelo chão. Ele acorda. Óbvio que ele já havia pensado em criar a gravidade. Mas o seu fluxo de vida não havia ainda sido sentido fisicamente: o pisar em solo, o desejo de saber qual era o seu peso físico.
Assim, criou aos poucos a gravidade. A gravidade para ele estaria pronta no momento em que ele pudesse sentir totalmente  a sua cabeça e a sua coluna vertebral. Para o pólo sul, tomou por base a sua posição naquele momento. Seus pés chegaram a um chão sem forma, era uma película tão fina que seus pés afundavam. Decidiu parar quando atingiu os 15% da gravidade que pretendia criar. Precisava, antes, de chãos mais sólidos.
Pegou, então, diversas películas do solo e as sobrepôs. Para facilitar a criação do solo e assim criar a gravidade total, criou paredes e delas formou um cubo. O sono, já há muito tempo negado, veio de forma tão abrupta que ele adormeceu. Desta vez, ele sonhou com um universo colorido e cúbico; ele se deitava em uma plataforma, sentava-se em um cubo e havia outro cubo maior contendo calças e camisetas de diversas cores. Ao acordar, havia um pote de cor em um dos cantos do cômodo. Com esta cor pintou os cubos em que ele se deitaria e se sentaria, e, por não ter lhe agradado a coloração, pintou apenas uma das camisetas. As camisetas, assim como o chão, foram modeladas com as mesmas películas, criando tantas quantas fossem o suficiente para preencher o cubo guardador de roupas.
No acordar seguinte outro pote de outra cor estava no mesmo canto. Começou a pintar as paredes. Em seus sonhos havia sempre algo a ser acrescentado; formas a serem arredondadas; paisagens a serem pintadas. Formava, assim, o que ele mesmo pensava ser uma casa. Era incrível como as coisas criadas davam a ele uma maior sensação de existência palpável. Tudo lhe era extremamente útil. E, com o passar dos acordares, as cores lhe eram oferecidas uma a uma.
Em certo sonho, ele viu uma sacada e uma paisagem verde com porções de azul. Na sacada havia uma figura que aparentemente era igual a ele. Ele tocava o rosto desta figura e em seguida tocava o dele próprio. Eram quase a mesma coisa; feitos da mesma matéria; e a forma de andar era a mesma. Esta figura só destoava dele por ser um pouco menor e um pouco mais delicada. Ela esticava tanto os lábios para as laterais do rosto que dava a sensação de que ela era feliz. Dos lábios apareciam pequenos pontos brancos. Isto fez com que ele se lembrasse de como a sua casa era antigamente: tão leve, o sono sempre regular, flutuando ao invés de andar, existindo somente o fluxo da vida e sendo completamente consciente. Sentiu, assim, pela primeira vez, a angústia por ter criado tantas coisas e por ter perdido a sua completa leveza. Aquela criatura trazia consigo o conforto que havia perdido.
Ao acordar, tentou inúmeras vezes retratar a figura. Era o tom da pele que ele não acertava. Misturava todas as cores e era praticamente impossível conseguir dar vida a ela. Em um momento ele acertou o tom, mas mesmo assim, nada de lhe dar a vida.
Decidiu voltar para as paisagens da parede. O chão, juntamente com as três paredes laterais, já estava pronto. Podia-se dizer que já era uma casa aconchegante, mesmo com a falta do teto e de uma parede lateral.
Foram mais de 35 dias para tentar se livrar do medo de aumentar a sua angustia por se distanciar, cada vez mais, do que ele tanto gostava de ser. Sem ela e sem ele próprio era provável que a vida se tornasse insuportável. Assim, já que pelo visto não poderia ter esta figura, queria ao menos se preservar. Mas era irreversível, precisava da sacada, da paisagem ao fundo, e do teto. Começou pela parede lateral. Retratou a sacada que vira no sonho. Queria tanto perfeccionismo que demorou exatas 173 dormidas para conseguir recriar a paisagem, afinal, a reconstrução da perspectiva era trabalhosa.
Durou mais 14 dormidas pensando no que fazer com o teto. Estava tão cansado que o sonho lhe veio estranho: em um universo branco e informe, somente o teto é que estava manchado de preto e com diversos pontos brancos. Decidiu manchar o teto. Aquilo de nada fazia sentido para ele, mas o fez mesmo assim. Terminado o teto, olhou para a figura, ainda na parede, e ela parecia ter criado certa leveza. Mas devia ser o efeito do sono.
Na acordada seguinte, seus olhos pareciam tão cansados como eram antes de dormir. Olhou para o teto e lá havia uma espécie estranha de rastro amarelado. Curioso com aquilo, ficou olhando por um tempo. Ouviu, de repente, em sua mente, e com uma voz estranhamente delicada: “Eu sonhei que os pontos brancos caiam, aí eu pintei isso. Você não liga, não é?!” Ele, assustado, levantou-se e olhou para a parede da sacada. Lá estava a figura completamente viva: “Bom dia, eu sou Íris. Gostei desta paisagem aqui.”. O bom dia ressoou como algo estranhamente novo, ele nunca havia pensado em classificar o momento do acordar; o nome Íris foi como se o estivesse hipnotizado, ele também queria um nome para hipnotizá-la.
Da sacada, Íris coloriu cada dedo com uma cor e traçou um semicírculo com os cinco dedos. “Íris, o que é isso?”; “Eu sonhei que talvez você nunca fosse pensar em fazer isso, já que você é tão perfeccionista. Mas no sonho você sorria enquanto eu fazia. Igual agora. Você não liga, não é?!”

2 Comentários

  1. Strider disse,

    Sábado, 4 Setembro, 2010 às 6:20 PM

    Isso me lembrou o Gênesis…

  2. Luiz disse,

    Domingo, 5 Setembro, 2010 às 1:46 PM

    Eu nunca ligaria.

    Muito bom. Mesmo.


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